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domingo, 21 de janeiro de 2018

A MARCA DO ZORRO.



Amadas e amados, boa noite!

Esta semana, enquanto trabalhava eu via um vídeo no Youtube falando sobre o atual cenário de quadrinhos nacionais e refleti um pouco a respeito, entretanto, dividir meus pensamentos com vocês terá que ficar para uma outra oportunidade (semana que vem, quem sabe?) pois não tive tempo de maturar um texto decente. Incrível como o tempo parece encolher a cada dia!

Um admirador do meu trabalho, de Brasília, me encomendou uma arte do Zorro, personagem que tive o maior prazer em executar, posto que foi uma das minhas alegrias na infância. Eu não perdia um único episódio quando passava na tv e devorei os poucos quadrinhos que me chegaram às mãos (detalhe, só recentemente eu fiquei sabendo que quem desenhava as aventuras do justiceiro mascarado era o brasileiro Walmir Amaral -  http://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,walmir-amaral-o-eterno-heroi-da-era-de-ouro-dos-quadrinhos,1575794).

Evidentemente fizeram vários filmes com este herói, acho a versão com o Antônio Banderas muito decente, contudo, quem eternizou - pelo menos para mim - o vigilante no período que a Espanha colonizou aquela parte da América, foi o Guy Willians na década de 50, produção de Walt Disney. Ainda hoje uma série que não perdeu a força. Dom Diego (Zorro), Bernardo (o fiel ajudante mudo), Dom Alejandro, Sargento Garcia, Cabo Reis, Capitão Monastério, o magistrado, o misterioso Águia...fantástico! O tal de Batman deve ter aprendido com o Zorro a ser um playboy mulherengo e beberrão durante o dia e fazer justiça a noite.

Pra me inspirar assisti alguns episódios no Youtube e fui atrás da biografia do Guy Willians, que uns anos mais tarde seria o professor Robinson de Perdidos no Espaço. Inacreditável o fim que ele teve.

Minha homenagem a este grande herói que enterneceu a minha infância.


domingo, 14 de janeiro de 2018

ALGUNS FLASHES DO PASSADO (PARTE UM)


Muito da nostalgia que eu tinha cessou, não penso mais com tanta frequência no passado, nem faço mais tantos planos para o futuro, sinto-me como se futuro não tivesse, o presente me obriga a focar nele, somente nele, em sobreviver ao dia e agradecer a Deus por conseguir chegar ao seguinte. Mas hoje, por algum motivo eu me lembrei de um incidente acontecido numa noite qualquer da primeira metade da década de 80.
Rodrigo, o meu irmão caçula, ao desligar um fio de uma tomada, ficou agarrado ao mesmo levando um tremendo choque. Meu outro irmão, André (que hoje é médico), vendo-o naquela situação, chutou a tomada , arrancando o fio da fonte de energia. O pobre menino ficou com as mãos queimadas, cheias de bolhas; assim que soube do ocorrido eu o coloquei de "cavalinho" nas minhas costas e junto com minha mãe nos conduzimos até a emergência do Hospital de Base de Brasília, que ficava perto de nossa casa. Lá, ele foi bem atendido. Enquanto enfaixavam as mãos dele, vi deitado em uma maca, um cara sem camisa, só de bermuda, cheio de sangue e hematomas, o cara parecia sentir muita dor pois de quando em quando ele estrebuchava e gemia alto. Próximo a ele uma moça muito bonita e elegantemente vestida se mortificava. Perguntei a um auxiliar de enfermagem que passava por ali se ele sabia o que tinha acontecido com aquele moço. "Aquele cara? Ah, ele foi mexer com uma mulher acompanhada e o namorado dela, que é faixa preta de caratê, deu-lhe uma surra que o deixou neste estado, a bonitona ali é a noiva dele!" Fiquei boquiaberto com aquilo, eu pensei que ele havia sido atropelado! Mas na verdade não era uma surpresa, eu sabia que apenas nos filmes um cara leva um monte de porradas e só fica com um pequeno corte nos lábios e algumas escoriações.
Certa vez, uma cara que eu conheci, tinha a mania de se meter em brigas por bobagem, numa ocasião ele se defrontou com um cara quieto, de baixa estatura e jeitão de índio; o baixinho deu-lhe uma surra tão feia que o meu conhecido até cagou nas calças, foi difícil socorrê-lo devido ao cheiro.
Um outro, amigo de infância, a quem chamaremos de C, vivia se metendo em tretas, desafiava todo mundo, até a polícia, quando o pegavam fumando maconha. "A sua sorte é que você está do lado certo da arma", dizia ele ao policial. Um dia, ele foi convidado por um outro rapaz da nossa quadra, que chamaremos de R, para tomar banho na piscina de um colégio, lá pelo lado da L2. Estavam muito bem, falando merda na água, quando apareceu o segurança do colégio querendo saber o que faziam ali. R disse que era sócio da piscina e C seu convidado. O segurança era um sujeito de uns 50 anos, magro, alto, ex-militar em muito boa forma, que disse: "Ok, você eu conheço R, mas você sabe, não é permitido tomar banho aqueles que não são sócios. Peço que seu amigo saia da piscina imediatamente!"
C esquentou, saiu da água cheio de imprecações: "Tá pensando o quê, ô coroa! Eu te encho de porrada!" O milico só limitou a aplicar-lhe um violento "telefone" e C caiu desmaiado ali mesmo. Foi socorrido pelo próprio segurança.

A vida é bem mais feia e complicada do que nos filmes, romances e quadrinhos.

Terminam aqui as minhas reminiscências por hoje.

Deixo com vocês um desenho encomendado e já entregue faz tempo.


Fiquem todos bem








segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

ANO NOVO, HÁBITOS VELHOS.



Sim, o ano de 2018 já coloca o pé no acelerador, é dia 8 e parece que o rompimento foi ontem a noite. É sempre assim, ao findar de um calendário todo mundo reflete sobre o tempo que passou e promete a si mesmo acertar no alvo que não foi possível na temporada anterior, uns querem ser mais pacientes, tolerantes, menos apressados, outros prometem que vão fazer mais exercícios, que vão emagrecer, pensar mais antes de tomar decisões ou não pensar ao decidir....bem, a questão é que funciona apenas no começo, depois de uma semana - ou menos - começam a fazer as mesmas besteiras de sempre. Não adianta, o paraíso não é aqui, ele é utópico. Bem, pelo menos pra maioria das pessoas (é o que tenho notado ao longo da minha vida).
Eu? Eu nunca me iludi com isto. Claro, não sou imune àquela magia de fim de ano ao abraçar uma pessoa querida e felicitá-la. Não consigo não fazer um balanço de tudo e ver no que posso melhorar a minha vida e mesmo sabendo que é apenas psicológico, eu tento recarregar as baterias e começar o ano novo com o pé direito. Uma coisa peço a Deus: bem aventuranças para minha família e saúde para fazer o meu trabalho e que trabalho não falte. Se a arte é mesmo necessária para não sermos esmagados pela realidade, como já proferiram alguns - e se arte é o meu ofício - eu quero continuar fazendo o melhor possível. De resto, que Ele me dê a minha porção acostumada, ter o que comer, beber, vestir e um teto sobre a cabeça e dou graças.
2018 tem promessas de lançamento de obras minhas, O BICHO QUE CHEGOU À FEIRA (ok, não é só minha, mas minha participação nele é grande) é dado como certo. Já A VIDA E OS AMORES DE EDGAR ALLAN POE, continuo sem certezas. O NCT - NOVOS CLÁSSICOS DO TERROR parece que ainda vai demorar mais um pouco. Cozinho em fogo brando uma nova aventura de Zé Gatão, se consigo terminar este ano é uma incógnita, e se concluir, publicar é uma incógnita maior ainda. É ir batalhando sem esmorecer como sempre fiz; tropeçando sempre ao longo do caminho, mas sem nunca ficar deitado, choramingando derrotas. 

Bem, é o que eu tinha para dizer nesta minha primeira postagem do ano (atrasada, era pra ter escrito ontem!). Vocês continuam comigo? Conto com isto.

Beijos nas gatas, um abraço nos gatos e fiquem com os esboço para uma comissão (já realizada) do Fantasma.


Até semana que vem, querendo DEUS!

sábado, 30 de dezembro de 2017

HAPPY NEW YEAR!!!!!


A todos vocês que gentilmente acessaram este blog e continuam acompanhando minhas postagens, minha eterna gratidão!

Desejo a todos um 2018 CHEIO DE REALIZAÇÕES, COM MUITA SAÚDE, GRANA E ARTE!

DEUS ABENÇOE A TODOS!


domingo, 24 de dezembro de 2017

HAPPY CHRISTMAS!!!!


Aos leitores deste blog, UM NATAL REPLETO DE ALEGRIAS E BENÇÃOS DO ANIVERSARIANTE SOBRE SUAS VIDAS E DE SEUS FAMILIARES, são os votos deste vosso desenhista, cada dia menor!

domingo, 17 de dezembro de 2017

UM DIA NA VIDA DE UM DESENHISTA (um conto pintado com cores opacas bukowskianas).

Ed Palumbo era desenhista, tentava pagar suas contas com aquilo que conseguia desenvolver no papel. Não era uma vida fácil, nada na vida dele era fácil, mas ele sabia que tinha gente muito pior, pessoas morrendo de câncer ou vivendo em países com guerra civil, tentava se consolar com isto. Paulista de nascimento, farto da vida infrutífera e da agitação da selva de pedra mudara-se para Brasília onde residia numa quitinete da comercial 202 norte.

Morto de cansaço ele acordou ao som do telefone. Levantou-se para atender, o sol na janela da pequena sala anunciava que deveriam ser mais de 9 horas da manhã.
- Alô?
- Ed?
- Sim?
- É o Strumer, do Periódico do Planalto.
- Ah, sim, tudo bem?
- Tranquilo. Incomodo?
- Não.
- Seguinte, não vamos poder publicar aquela matéria que fizemos sobre aquele seu álbum de quadrinhos, infelizmente.
- Tudo bem.
- Olha, seu trabalho é ducaralho, mas tenho que te dizer, editores de jornal não se importam com tiros na cabeça e tripas espalhadas no asfalto, mas se incomodam muito com picas e bucetas, tá me entendendo? O teu trampo tem todas estas coisas, então não vai rolar.
- É uma pena, mas tudo bem, agradeço por você ter tentado.
- E olha que tentei mesmo, cara, sou teu fã! Quem sabe numa próxima?
- Pois é, quem sabe?
- Valeu, cara! Abração e sucesso com teu gibi!
- Obrigado!

Ed estava sedento, a cabeça doía, foi à geladeira e bebeu um copo de água, sentia o corpo pesado. Tornou a deitar-se. Estava frustrado, precisava que seu álbum de quadrinhos vendesse bem, o Periódico do Planalto era o tipo de veículo que se dissesse que merda fazia bem à saúde os leitores iriam correndo comer. O sono chegava de mansinho quando ouviu batidas na porta.
Levantou da cama e pôs uma camisa.
Atendeu; do lado de fora uma loura de olhos verdes sorria.
- Você é o Ed Palumbo?
- Sim.
- Amo seu trabalho, seus desenhos, seus gibis, amo você! Uma amiga me deu seu endereço. Poderia assinar este seu livro?
Ela estendia para ele sua primeira coletânea de tiras, lançada muitos anos antes, um trabalho fraco, mas que lhe deu uma passagem para o reduzido mercado das artes gráficas no Brasil.
- Claro! Gostaria de entrar?
- Oh, sim, obrigada!
Ao passar por ele, notou seu corpo escultural, ela usava um vestido de noite, verde brilhante, apertado.
Entregou para ele o livro e foi quando Ed notou que ela tinha pinças de caranguejo no lugar das mãos. Ele não fez caso disso e começou a autografar o tomo.
A loira caminhou até uma estante que havia na minúscula sala e se admirou:
- Nossa! Quantos livros de arte bacana você tem aqui! E estes são os que você publicou?!? Meu Deus, que relíquias! Amo seus trabalhos!
Ed reparou que a mulher tinha tentáculos de polvo como pernas e retirou seus livros da estante e começou a devorá-los com um bico cheio de serras, com uma fome louca e fazia um barulho horrível ao comer, ela parecia aqueles dinossauros alados. Neste ponto, Ed acordou. O barulho que ouvia era o de uma distante britadeira que vinha de fora.
Porra, que sonho escroto! pensou. Não dá pra dormir mais.

Fazia calor. O ventilador de teto estava com defeito e girava lento. Tinha fome mas estava com preguiça de ir na padaria da SQN 203 traçar um misto quente com vitamina de mamão e laranja, restava apenas comer alguns biscoitos recheados que tinha no armário da cozinha e tomar um copo de leite.
O telefone tocou.
- Sim?
- Senhor Palumbo?
- Ele.
- É da Imobiliária Novo Horizonte, tudo bem?
- Tudo.
- O seu aluguel está atrasado.
- Vocês disseram isto ontem.
- Bem, quando o senhor poderá pagar?
- Eu disse ontem e anteontem. Acertarei semana que vem com os devidos juros.
- Ah, certo, então. Desculpe incomodar e tenha um bom dia.
- Ok!

Palumbo sabia que o bonde da felicidade não passaria pela rua dele, se passou um dia ele não percebeu. Tinha 55 anos e havia avançado pouco na vida. Um tanto mais de dinheiro não faria mal,  só para ele não ter que passar por certos apertos. Pensando nisto ele discou um número.
Depois do que pareceu ser uma eternidade uma voz apática atendeu.
- Zezão?
- Ele mesmo.
- É o Ed Palumbo.
- Hei, falaí grande artista! Mito dos desenhos!
- Zezão, quando você vai pagar pela arte que me encomendou?
- Já terminou a nova que te pedi?
- Ainda não, mas você não me pagou pela anterior, tenho que quitar meu aluguel e abastecer minha geladeira, cara!
- Claro! Faz o seguinte: termine esta e eu acerto logo as duas no início da próxima semana. Vai entrar uma grana na minha conta e eu transfiro para você.
- Ok, combinado. Até!
- Falou, se cuida!

Se espreguiçou, preparou lápis, pinceis e sentou-se na prancheta. A arte encomendada não era difícil mas ele se sentia pouco motivado. Molhou o pincel na água e já ia colher a tinta quando a campainha soou. Ele se levantou e foi abrir. Era o Taveira.
- Diz aí, Ed! E foi entrando.

Taveira era um cara alto, ruivo, magro, difícil de especular a idade, devia ter de uns 25 a 30 anos, usava sempre roupas encardidas e cheirava como uma pessoa que não tomava banho a muito tempo. Sempre descabelado e mal barbeado. Nunca ria e falava sempre com voz monótona.
- Esse mundo é podre! Disse.
- É mesmo, respondeu Ed, se sentando para ver se conseguia trabalhar enquanto o Taveira murmurava suas besteiras. Taveira sempre dizia que odiava as pessoas.
- Tenho ódio das pessoas!
- Sei.
- Ontem eu descia as escadarias da rodoviária. Todo mundo com pressa e lá estava aquela mulher gorda, parada nos degraus, falando no celular e atrapalhando quem estava com pressa e queria passar. Tive vontade de dar um chute bem forte no cu gordo dela e vê-la rolar degraus abaixo!

Palumbo passava o pincel com as cores sobre a superfície do desenho como quem não escutava aquela litania monótona sobre como as pessoas são frias, covardes e inócuas e como a arte poderia salvá-las. Taveira desenhava bem, tinha um traço minimalista bem interessante, criava umas tiras que traduziam seu pseudo desprezo pela humanidade e em seguida queimava tudo. Ele, felizmente nunca sentava, só falava sem parar, olhava Ed pintar e nunca fazia comentário, nenhum elogio ou crítica. Para ele só havia uma pessoa interessante nos quadrinhos, Alan Moore, o resto era merda, até mesmo Eisner. Vivia fazendo paralelo com Watchmen e a filosofia nietzschiana, sempre o mesmo repeteco,  tirando meleca do nariz e limpando na camisa.
- Um dia vou pegar uma arma e dar uns tiros em algumas pessoas, mas só em gente escrota, só em filho da puta!
- Tenha calma, Taveira. Relaxa, cara, sinta o sol, o vento, não vale a pena se aborrecer. O mundo é complicado e a gente tem que se adaptar.
- É, acho que cê tem razão. Bem, vou indo nessa!
- Falou cara, não vou me levantar, não posso parar aqui, se esta cor secar antes da próxima camada, fodeu!
O outro nada respondeu. Observou rapidamente os livros e os quadrinhos de Ed na estante como sempre fazia e saiu.

Passava de uma da tarde e o desenhista sentiu fome. O telefone tocou mas ele não atendeu. Foi até a minúscula cozinha e pôs um pouco de água para ferver. Retirou da pequena geladeira um pouco de carne moída da véspera. Adicionou ketchup e botou pra esquentar. No ponto certo despejou uma caixinha de creme de leite e misturou tudo. A água fervia e ele jogou um macarrão instantâneo dentro. Em três minutos ficava pronto e ele despejou a carne moída em cima. Catou um suco de uva em pó de saquinho e diluiu numa pequena jarra de água gelada. Comeu enquanto assistia o noticiário. Tudo notícia fabricada, pensou.

Antes de voltar ao trabalho alcançou o grosso volume de Crime e Castigo para ler pela quinta vez, um ótimo livro mas que capengava no arco final, ele tinha plena certeza que Dostoievski mudou o final para atender melhor o público. Ninguém estava livre de se vender para agradar os outros e assim obter mais sucesso.

Começou a sentir sono quando o telefone tocou mais uma vez. Não fez caso. Pôs sua calça jeans, o tênis e vestiu uma camisa branca. Pegou uma sacola de roupas sujas que estavam num canto e saiu. O sol estava forte, mas de uma quentura agradável, as cigarras cantava dando à atmosfera um tom preguiçoso. Se encaminhou até a lavanderia e foi atendido pela mocinha dentuça e bunduda.
- Olá! Nunca mais tinha visto o senhor!
- Sim, muito trabalho e roupas sujas acumulando, sabe como é.
- Imagino.
Pagou o sinal, pegou o recibo e saiu. Passou pela banca de jornal da quadra. Deu uma vista pelas manchetes dos jornais e folheou alguns quadrinhos. Muita coisa havia mudado desde que ele lia super-heróis, O Superman não respondia mais aos EUA e sim a ONU, o Capitão América não era mais a sentinela da liberdade, mas um dedo duro da Hydra, o Thor tinha virado mulher, e quem usava o traje do Homem de Ferro era uma mulher negra. Porra, que tempos tristes! Pensou.

De volta ao lar sentou-se para recomeçar o trabalho, eram 15 e 30. O telefone tocou. 
- Alô!
- Oi, Ed!
- Fala, Ingrid! O que manda?
Ela tossiu, em seguida parecia que bebia algo.
- Eu e o Filho terminamos tudo.
- É mesmo?
- Não suportava mais as traições dele, aquele cheirador de cocaína miserável!
- Entendo.
- Ele que se foda com aquela banda de rock de merda dele.
- Até que ele faz sucesso.
- Cê gosta da música dele?
- Nem um pouco; na verdade, não é que eu não goste, eu não ligo a mínima, aquilo não me diz nada!
- Aquele viciado nojento!
- Olha, Ingrid, desculpa, mas estou ocupado aqui!
- Estava lendo o sua HQ, é muito boa!
- Ok.
- Tem um personagem lá que tem um pau bem grosso! Ouvi dizer que os artistas colocam muito de si mesmos em suas criações. Estava pensando em passar aí depois que eu sair do trabalho e constatar se é mesmo verdade.
- Olha, não é uma boa ideia.
- Não gosta de mim?
- Não é isso, é que pretensamente eu sou um ilustrador e se eu não trabalhar não pago as minhas contas! E depois, você e o Filho já romperam outras vezes e voltaram, acho que desta vez não será diferente.
- Você é uma pessoa estranha, Ed.
- Muitos acham isso.
- Gosto do seu jeito, a maneira como me olha, o Filho disse que você elogia meus olhos cor de mel. Você é um cinquentão muito charmoso. Sei que você não curte cigarro, prometo que seu eu for aí não vou fumar.
- Um outro dia, talvez, hoje estou realmente muito atarefado.
- Certo, me liga depois? Gosto de ouvir sua voz.
- Sim, depois.
- Beijo!
- Até!

Ed foi até a geladeira e bebeu o restante do suco.
Sentou-se e continuou o trabalho. Tempos depois ouviu alguém gritar seu nome repetida vezes, foi até a janela e lá estava o PT.
- Cara, desculpe berrar assim, mas não tinha certeza se tu tava em casa!
- Sobe aí.

Ed conheceu PT numa comic shop de Brasília e desde então ficaram próximos. Era um escritor de talento e nos últimos tempos tinha metido na cabeça - influenciado por Neal Gaiman - que queria ser roteirista de quadrinhos. Tinha umas ideias bastante interessantes. Ele vivia com uma mulher muito bonita chamada Yolanda, e segundo ele mesmo, doida e paranoica. Enquanto ouvia os passos do cara no corredor, Palumbo antevia a mesma conversa de sempre sobre a direita retrógrada e a má interpretação que faziam da obra de Marx, além de "papai disse isso ou papai falou aquilo".
- E aí, gênio, o que anda aprontando? Caralho, isto está ficando sensacional!" Entusiasmou-se PT exibindo um largo sorriso com dentes enormes e ligeiramente projetados à frente. Ele parecia mesmo gostar das artes do Ed Palumbo. Um tempo antes ele criou um roteiro intrincado para uma HQ e queria que Palumbo fosse o desenhista. Pediu uns esboços de personagens para anexar ao texto e fez a defesa do projeto às editoras paulistas, a resenha enaltecia o talento do ilustrador como nunca fizeram antes e demonstrava ser bem sincero. Pena que o roteiro tenha sido recusado por todos, o material era muito bom.
- Cara, não me conformo de você não ser aclamado como um dos grandes de todos os tempos!
- Obrigado, PT, mas não exagera!
- Não é exagero cara, eu tenho discernimento, sei que tu é foda na arte e escreve uns roteiros muito massa! Só não entendo como funciona o mercado editorial no Brasil, eu sei que você se esforça e vai à luta. Papai sempre me diz que as coisas não caem do céu, a gente tem que correr atrás e sei que você faz a sua parte.

Ed sabia que aquele papo não levava a nada embora houvesse muita coerência no que o PT dizia; tornou a trabalhar enquanto o outro falava.
- Pelo pouco que notei deste meio dos quadrinhos, existe muita panelinha, talvez se você fizesse parte de alguma delas...
- Eu já tentei, meu caro, não gosto de clubinhos, mas houve um tempo na vida em que deixei de lado meus escrúpulos e fui a tudo que era evento e lançamento de HQs, tentei me enturmar com os fodas que fundaram academias de arte, conheci muita gente bacana, talentosa e esforçada. A maioria - é bem verdade - depois que conquista um espaço se acha uma estrela e fica babaca, embora o que produzam seja mais do mesmo, um padrão que se estabeleceu no mercado ianque, mas tem uma parcela que sabe que há espaço para todos e sempre há novidades a aprender, com estes fiz uma sólida amizade. Eles dão dicas de trabalho sempre que podem....se esta é uma panelinha...
-Isso aí, cara, papai sempre disse que temos que correr atrás do sonho para vê-lo realizado. Do que você falou, sinto a mesma coisa no ambiente literário, o cara não é porra nenhuma, mas dá a sorte de publicar um livro bem criticado num veículo como a Folha de São Paulo e já se acha um Cervantes. E essa coisa de crítica é foda, basta um dizer que é legal e todo mundo copia sem nem ter lido a obra toda. Livros hoje em dia é escrito por uma equipe de pessoas e uma só leva o crédito.
- Complicado, né? Disse Palumbo com um suspiro de impaciência.
- E tem escritor que todo mundo ama sem nem ter lido a obra do cara, é o caso de Joyce, papai sempre diz que toda a unanimidade é burra.
- Essa frase é atribuída a Nelson Rodrigues!
PT explodiu em uma sonora gargalhada como sempre fazia quando achava graça em algo.
- Isso é bem típico de papai, roubar a máxima dos outros como se fossem dele.
Dizendo isso o PT enfiou a mão por dentro das calças - na traseira - e começou a coçar sofregamente.
- Não repare, tem três dias que não tomo banho e minha bunda tá coçando!
Ed fingiu que não escutou e continuou sua pintura.
- Rapaz, essa noite foi difícil, Yolanda acordou durante a noite com um pesadelo e começou a gritar! Eu dizia: calma, calma, foi só um sonho! Mas nada dela se recompor, então veio um ataque violento - te falei que ela sofre de epilepsia, né? - Dei o remédio dela, mas desta vez foi forte a coisa!
- Rapaz, sinto muito!
- Ah, tudo ok, agora! Hei, vamos comer em algum lugar? Estou com fome! Papai não depositou grana na minha conta esta semana, mas eu ainda devo ter algum crédito.
- Obrigado, PT, mas tenho mesmo que terminar esta ilustração.
- Ok, então, vou nessa!

Ed acompanhou o rapaz até a porta.

Voltou à mesa mas não pegou nos pinceis. Toda aquela conversa trazia à ele uma crescente depressão. Tudo parecia inútil e sem sentido. Correr atrás do vento, enxugar gelo, não parecia fazer outra coisa na vida a não ser, à moda dos cães, girar em círculos tentando morder o próprio rabo.
A tarde se avizinhava e ele foi a geladeira, tomou um copo de água e deitou-se um pouco. Cochilou pesado por uns 30 minutos, teria dormido mais se não fosse de novo o telefone.
- Alô!
- Fala Ed, tudo bem?
- Quem é?
- Cara, não reconhece mais os amigos?
- Desculpe, não estou identificando a voz.
- É o Lu Batata, cara!
- Não lembro de nenhum Lu Batata.
- Cara, assim você me magoa, nos conhecemos num workshop que você deu no ano passado no Memorial da América Latina!
- Ah, sim, lembrei! Como vai?
- Tô de boas! E tu?
- Também, só ocupado, agora.
- Entendi, cara desde que ficamos amigos meu traço melhorou muito, você vai ficar impressionado com meus desenhos, são poderosos!
- É mesmo?
- Sim, vou mandar para seu e-mail, ok?
- Escute, não leve a mal, mas como sabe meu telefone e e-mail?
- Foi o Peixeiro quem me deu.
- Ah, sim, o Peixeiro. Ele nunca mais deu notícias.
- Ele largou a vida de desenhista e virou caminhoneiro. Deve estar lá pelas bandas de Belém do Pará.
- Ok, Batata, tenho que desligar.
- Falou, gênio! Aguarde meus desenhos!

Ed suspirou cansado. Se possível fora ele queria dormir por longuíssimo tempo.

Colocou uma coletânea de Jazz dos anos 30 no computador  e trabalhou por mais uma hora ignorando o telefone que sempre tocava. Quase 20 horas, teve fome, saiu para comer algo numa lanchonete que tinha numa quadra próxima. A noite estava maravilhosamente estrelada.

Voltando a seu apartamento ligou a tv, sapeou os canais e não tinha nada de bom passando. Deteve-se na globolixo onde um casal se esmurrava e em seguida se beijavam como se não houvesse amanhã. Novelas, ele já assistira este tipo de coisa no passado, num tempo onde as pessoas tinham algo a dizer. Ed detestava essas estrelinhas globais, pessoas vazias, ocas, sem estofo, com quilos e quilos de  mentiras e de maquiagem e tinturas de cabelos, pessoas que enalteciam umas às outras falsamente. Mercadores de ilusões baratas. As personagens nunca trabalhavam naquelas tramas e sempre tinham dinheiro, nunca ficavam a vontade em suas casas, nunca usavam bermudas e chinelas, dormiam maquiadas e acordavam como se tivessem vindos de um salão de beleza. Desligou o aparelho.

Pintou seu desenho mais um pouco ouvindo Miles Davis. Parou. Fez um alongamento, em seguida cinco séries de flexões de braços, algumas abdominais. Ofegou. Estava velho, sem fôlego. Pra quê aquilo tudo? Ele não sabia, só para manter um ritmo, um hábito de vida, talvez. Foi ao banheiro, escovou os dentes e tomou banho.

Sentou-se para terminar a arte. O telefone tocava. Não atendeu.
Colocou sua assinatura no papel ainda úmido e olhou a arte de longe. Tinha ficado razoável. Mais uma obra terminada. Escaneou e enviou a pintura por e-mail. Sabia que teria que lutar para receber por ela. Com aquele cliente era sempre assim. Ele demorava mas sempre pagava.

O telefone tocou novamente, ele desconectou da parede, desligou a luz e se deitou.

Mais um dia havia se passado e ele tinha vivido. Fechou os olhos esperando o sono, se tivesse sorte,  nunca mais acordaria.

 






domingo, 10 de dezembro de 2017

O DESENHISTA E SEU ANIVERSÁRIO.


Para quem lê com um pouco de atenção as coisas que escrevo aqui deve imaginar que se eu não tenho lá muita predileção por olhar meu rosto no espelho deve imaginar também que não gosto do meu aniversário. Sim, isso mesmo. Aliás, não ligo. As pessoas dão uma grande importância a isto e acho até que estão certas, afinal um ano vivido tem mesmo que ser comemorado, mas eu na verdade não vejo muito sentido em tudo isso. Era pra eu ter morrido (com absoluta certeza) umas duas vezes, uma delas a quase 50 anos atrás, me marcou tanto que até hoje me lembro. Para que e porque (que e porque tem acento circunflexo neste caso? sou ruim de português) estou vivo até hoje só Deus sabe.

Sempre disse para minha mãe não fazer festa (não tenho lembranças de festas durante os anos 70, só me lembro de medo e tristeza). Durante os anos 80, o dia cinco eu tirava para refletir um pouco, faltava no trabalho sem nenhuma justificativa e caminhava pela manhã no Parque da Cidade em Brasília, pensava na vida e procurava ficar a sós com Deus. Naquela época isso era possível num parque agradável como aquele, hoje não sei. Era um dia que eu tirava para mim, ia ao cinema e se possível fosse, comprava um livro. Mas minha mãe não deixava passar batido, sempre preparava um almoço especial, geralmente lasanha, que gosto muito.
No SENAC, onde trabalhava, eu tinha alguns conhecidos que eram pessoas agradáveis, mas a maioria me ignorava como se eu fosse um inseto, mas no dia do meu aniversário vinham me cumprimentar - hipocrisia sem pre me deu nojo - uma amiga minha trabalhava no setor de pessoal e eu pedi a ela para tirar meu nome da lista de aniversariantes que ficava no mural da empresa, aí acabou a palhaçada.

Ao me aproximar dos 40 decidi comemorar minha data, convidar amigos mais próximos e passar alguns momentos conversando, comendo salgadinhos e bolo. Mas esta minha atitude não durou muito.

Vera sempre faz um belo almoço neste dia, assim como sobremesa e um bolo especial. Ok, se isso agrada a ela.

Meu último níver na semana que passou foi legal, comida gostosa, ligação dos familiares e muitas mensagens no Facebook, tanto que não consegui responder um por um como gosto de fazer.


O amigão e ótimo desenhista, Gilberto Queiroz, me homenageou com este belo desenho que diz muita coisa. Gratíssimo, Gilberto!

Até a próxima, se Deus permitir, folks!