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domingo, 23 de abril de 2017

O COMEÇO DO FIM.


A sexta última (feriado) me encontrou bem cedo diante da UPA (Unidade de Pronto Atendimento). Depois de uns dias mentalmente e fisicamente bem desconfortáveis eu resolvi procurar ajuda médica no serviço público de saúde. Na verdade, a minha lesão no músculo lombar já estava bem melhor, o que me levava ali era outro problema. Entrei e fui conduzido pelo guardinha até um guichê. Lá uma morena perguntou o que eu estava sentindo, respondi e ela pareceu não ouvir. Pegou meu pulso esquerdo e colocou aquele aparelhinho de verificar a pressão. Estava em 15 - assim, redondo! Depois ela enrolou uma  pulseira de papel de coloração verde no mesmo pulso e me indicou outro guichê. Lá uma mocinha me pediu identidade e digitou meus dados, me levou até um local amplo com muitas cadeiras e várias pessoas sentadas esperando. A UPA estava limpa e bem organizada, o problema é que tem gente demais para poucos médicos e seus assistentes,

Me sentei diante de uma tv, mas não havia programação, só as propagandas sobre o SUS. Pelo menos fui poupado de ver os jornalistas e atores da Globo. Acho que decorei cada palavra do programa de conscientização sobre o câncer de mama. Foi bom, já passei tudo para a Verônica.

Depois de um longo tempo chamaram meu nome. Fui atendido por um médico bem jovem, se bobear não tinha nem trinta anos. Expliquei o que me incomodava e ele replicou me informando o que eu já sabia a muito tempo, o que eu precisava, na verdade, era de alguma coisa para alívio, ainda que temporário, do problema, enquanto eu não me consultava com um urologista particular. Ele pediu alguns exames, um de sangue e outro de urina, dependendo do resultado ele indicaria alguma medicação.

Fiz os procedimentos. A outra morena que colheu meu sangue disse que os resultados demorariam umas seis horas para ficarem prontos. Ok, eu disse, então volto mais tarde para saber o resultado. Ela: "Nããão! O senhor tem que ficar aqui, se sair será "abandono de consulta!" Perplexo, não respondi nada. Posso pelo menos procurar um orelhão para ligar para a minha esposa avisando que isto vai demorar? Perguntei. Detalhe, como vocês podem ver ainda sou do tempo em que se usavam orelhões, não ando com celular. A morena me falou que eu poderia ligar da sala da assistente social, mas que eu teria que esperar pois não havia ninguém lá naquele momento.
Depois fui direcionado a uma sala cheia de gente sentada tomando soro. O que eu fazia ali? O médico prescreveu soro para o senhor. Soro?!? Pra mim?!? Não questionei, sentei-me assim que vagou um lugar. Me furaram de novo e o soro descia em gotas rápidas para as minhas veias.

À minha esquerda, uma jovem que tinha as proporções de um rinoceronte gemia dolorosamente, "Aaaaah! Aaaaaah! Eu...não aguento!" Soube depois que ela sofrera uma lesão na lombar, como eu, dias antes.
À minha direita um rapaz de uns dezoito anos me olhava sorridente, usava bermudas e boné, bigode ralo, falou; "Porra, tomei todas ontem, tá ligado? Quase tive coma alcoólico. E hoje a noite tem mais!"
Eu ouvia a voz de uma mulher em algum lugar, voz alta, falando sem parar, dizia que havia trabalhado muitos anos para uma família, ficou doente e a despediram sem pagar direitos, pensou em colocar na justiça mas preferiu não fazê-lo pois o mundo dava voltas e um dia ela estaria por cima e a tal família por baixo e ela riria deles. Quando ela saiu vi que era uma negra com quase dois metros de altura.
Uma senhora jovem, de uns quarenta anos, excelente aspecto físico, se lamentava penosamente de dor, estava em seu quintal quando foi picada por algo, provavelmente escorpião.
Tudo isso eu ia ouvindo e observando quando notei que um líquido escorria do meu braço e ao invés de entrar soro em minha veia, saía sangue dela para a mangueirinha. Hei, disse para a auxiliar de enfermagem, acho que há algo errado aqui! "Não, falou ela retirando a embalagem de soro do suporte e me entregando, está tudo certo. O soro acabou, o senhor pode sair e esperar lá fora." Mas com isto espetado no meu braço?!? "Sim, se houver alguma medicação receitada pelo médico após o resultado dos seus exames não precisaremos furá-lo de novo!"
Se houve um momento onde me senti de fato velho nesta vida foi aquele, eu segurando o invólucro do meu soro com uma mangueira entubada na veia. Ainda bem que não era uma sonda por onde sairia minha urina ou coisa pior.

Procurei a Assistente Social e pedi para usar o telefone rapidamente. Falei pra Vera que provavelmente eu iria demorar bastante ainda. O restante do tempo eu passava sentado, vendo os anúncios do Sistema de Saúde Brasileiro e indo ao banheiro urinar (meu problema requer ida constantes ao mictório) ou andando pelos corredores do lugar. Muitas mulheres jovens com seus filhos nos braços, infantes chorando e vomitando, idosos em cadeiras de rodas, uma delas não tinha um pé. Diabetes? Possivelmente. Um rapazinho de bela aparência facial, paraplégico, agonizava de dor por algum motivo, uma senhora que estava na sala do soro pedia a Deus que o resultado de seu exame não acusasse apendicite.

As horas passavam e com certo pesar vi o jovem médico que me atendeu ir embora. No final da tarde os resultados chegaram e finalmente meu nome foi chamado por uma médica gorda de rosto e olhos muito bonitos. Olhou rapidamente minha ficha e meus exames e disse que os resultados não acusavam infecções nem inflamações, tampouco vírus ou bactérias. O que me atormentava devia ser algo que só uma consulta com o urologista poderia atestar de fato. Eu já desconfiava. Pedi algo para aliviar meu incômodo e ela prescreveu um Buscopam Composto (estou tomando, não fez muito efeito, até agora).

Um dia inteiro perdido naquele lugar.

A noite tinha chegado. Agora eu precisava batalhar grana para uma consulta particular e os exames que certamente vão pedir. Não posso demorar, cada segundo conta.

Ao voltar pra casa, no asfalto, vi sangue, tripas e ossos esmagados. Pela coloração da calda vi que se tratava de um gambá.

O desenho de hoje é mais um esboço no meu Sketchbook para um fã do felino taciturno.  







domingo, 16 de abril de 2017

A ESCRAVA ISAURA (CENA 6)



Ê, feriadão! Não estão sendo dias auspiciosos, minha lesão nas costas e a obrigação de trabalhar nas páginas finais de O BICHO QUE CHEGOU À FEIRA, tornou tudo mais amargo, repouso é absolutamente necessário neste caso mas eu tive que me virar para não deixar a peteca cair e muito menos comprometer a qualidade do trabalho, lentamente a produção segue; como se não bastasse, uma velho problema no meu organismo, que pensei estar controlado, resolveu despertar. Tudo isso em meio a uma destas crises financeiras que nos socam o nariz de surpresa, impedindo de achar soluções mais eficazes.
C´est la vie! Seguimos o curso do rio, tentando não desanimar. Por isto mantenho este blog e minha página no Facebook, para dar uma satisfação aos que gentilmente apreciam os meus traços e cores nos papéis.

O QUE TENHO LIDO? Para a minha vergonha, confesso que não estou lendo nenhum livro. Não tenho realmente tido tempo. Para não dizer que estou em jejum completo estou lendo uma HQ chamada O PERFURA NEVE, um clássico da BD francesa que acabou virando um filme que nunca assisti chamado O Expresso do Amanhã. O álbum pesadão foi um presente dado pelo amigão Elton Borges Mesquita (gratíssimo brô!) e estou achando interessante, embora a primeira parte do mesmo seja bem superior às duas partes posteriores (pelo menos até agora).

O QUE TENHO OUVIDO?  Eu vou e volto sempre revirando meu velho baú de canções e bandas do passado, nestes últimos dias só estou curtindo Queen. Acho que não preciso dizer mais nada.

O QUE ESTOU ASSISTINDO?  Algo a ver com quadrinhos sempre me chama a atenção, estou na metade da série PUNHO DE FERRO. Na minha opinião, pouco a ver com o herói dos gibis. Tá tudo lá, o acidente aéreo que vitimou os pais do herói, as pessoas que tomaram sua fortuna, o punho que fica iluminado e tal, mas não sei, fora o Demolidor, as séries da Netflix não conseguem fazer justiça aos personagens do papel. Mas não posso dizer que Punho de Ferro seja de todo ruim, Luke Cage foi uma decepção, mas esta até que distrai um pouco. Só acho falta de muitas artes marciais, que deveriam ser o ponto central da série. Até agora é esquecível.

Assisti, baixado da internet a KONG E A ILHA DA CAVEIRA. O que posso dizer? Gosto de filme de monstro, ignorei a história rasa e deixei o menino em mim vibrar com a porradaria entre o gorilão e os lagartões daquela ilha maldita. Os atores? Bah, nem Marlon Brando consegue superar o King Kong!


Bem, a arte de hoje é mais um momento de A Escrava Isaura.

Até a próxima, meus queridos e queridas!










domingo, 9 de abril de 2017

O VELHO ALQUEBRADO E UMAS IMAGENS DE UM LIVRO INFANTIL.







 Quem vos escreve aqui é um homem com uma baita dor nas costas, especificamente na região lombar. Na sexta feita este velho idiota foi depositar um objeto bem pesado no chão e sentiu um choque no cóccix. Aí travou tudo. Eu nem descia e nem subia o tronco, Como não sou de pedir água, trinquei os dentes, apoiei as mãos nos joelhos e lutando contra a gravidade, fiquei ereto. Eu sabia o que iria sofrer pelas horas e dias seguintes. Tomei o último Tandrilax e fui à rua pois precisávamos de leite em casa. Na ida e volta do mercado eu andava com se tivesse uns 200 anos mal vividos. Mancando, como se algo afiado arranhasse internamente minha nádega esquerda e uma mão perversa espremesse meus testículos. Entrei em casa e a dor me disse: "Ok, filho da puta, fui legal com você enquanto cê tava lá fora, aqui dentro cê é meu!" Ainda tinha umas obrigações com uma página do quadrinho "O BICHO QUE CHEGOU À FEIRA" e me sentei para dar os retoques na folha. Meus quadris parecia sem lubrificação, cada movimento era um choque doloroso que irradiava pelas pernas. Me levantar da cadeira exigiu um esforço monstro! Estou fodido, pensei.
Tomar banho foi um suplício, principalmente lavar os pés. Me enxugar idem. Me deitei sobre uma toalha no chão da sala e coloquei gelo. enquanto sentia o meio das costas ficar dormente eu pensava: "Oh, Deus, estamos quebrados de dinheiro, eu não posso parar de trabalhar, esta HQ já demorou demais! Tenho que terminar estas últimas seis páginas para pagar as contas!" Quis chorar mas não consegui. Em casa não havia nenhum analgésico, eu raramente tomo remédio, minha esposa tem cefaleias realmente fortes e ela sempre toma dipirona e afins, geralmente não sobra nada.
Eu temia a hora de ir para a cama pois sabia que eu não ia encontrar posição adequada para repousar. Vera fez uma bela massagem com um produto a base de cânfora, me acomodei de lado em posição fetal e adormeci.
Me erguer pela manhã foi angustiante, eu precisava urinar. Vera foi à rua e voltou com comprimidos para a dor. Não gosto de me auto medicar mas ir ao SUS por aqui é pedir para voltar pior. Tentei trabalhar mas vi que era impossível, eu não conseguia ficar cinco minutos sentado, nem cinco minutos em pé. O jeito foi relaxar na cama, sempre mudando de posição de tempo em tempo. O remédio provoca sonolência.


Sabem, assisti faz tempo dois filmes onde os protagonistas de cada um tinham problemas de dores nas costas - por acaso, de dois diretores alemães - e por acaso, achei as duas fitas ruins, uma era do Werner Herzog, esqueci o título; nele o Nicolas Cage, para salvar um suicida, pula num canal, o ato o deixa com sérios problemas de coluna e ele passa o filme todo com cara de dor e viciado em analgésicos. O outro é do Win Wenders, acho que se chamava The Million Dollar Hotel e o Mel Gibson é um agente do FBI (eu penso) que sente tantas dores nas costas que tem que usar um colete especial, passa a película suado e com cara de sofrimento.
Deve ser horrível levar uma vida assim. Hoje já me sinto melhor (mas não tanto), espero melhorar logo, sobretudo porque tenho muito ainda que produzir para continuar vivendo e não ir parar debaixo da ponte (falo sério!).


As imagens de hoje são de um dos tantos livros infantis que ilustrei: O MOEDOR NO FUNDO DO MAR, uma fábula norueguesa.


Até a semana que vem, com melhores notícias, se DEUS quiser!



segunda-feira, 3 de abril de 2017

LOGAN.

Cansaço de fim de domingo. Foi um dia agradável - de trabalho - como sempre, mas bem produtivo. Concluí uma arte que precisa ser enviada amanhã pela manhã para a editora pois o livro entra em gráfica na terça-feira. Isso não muda nunca, um valor baixo (sempre vou reclamar disso) para uma ilustração que tem que ser executada a toque de caixa com o padrão Schloesser de qualidade. Mas tudo bem, é o que tenho no momento e preciso ser grato a Deus por conseguir pagar minhas contas com a única coisa que presto para fazer.

Não pude mais ir ao cinema, mas a curiosidade de assistir ao último filme do Wolverine foi tanta que assisti pela internet numa qualidade de imagem e de som bem sofrível. Mas sabem, valeu a pena. É um bom filme, Gostei! Claro, está muito longe de ser aquele filme de super-heróis que sonho em assistir, acho mesmo que nunca farão um filme como são os quadrinhos. São universos e linguagens diferentes embora um beba na fonte do outro, mas acho que idealismo e cores são mais aceitáveis nos gibis do que nos fotogramas. A Marvel  tem chegado bem perto com suas produções. Até agora tenho me divertido bastante, torcendo meu nariz apenas para Homem de Ferro 3,  ainda assim tem momentos interessantes. Não posso dizer o mesmo da DC, infelizmente; Batman x Superman pra mim foi uma bomba e o Esquadrão Suicida eu gostaria muito de esquecer que assisti, mas é difícil ignorar um filme tão ruim, só não foi pior por causa do Batman, um personagem que sempre tem algo a dizer, mesmo que não abra a boca.

Eu sempre gostei do Wolverine, cara turrão, atormentado, pavio curto, muito inteligente, que luta para que sua natureza animal não sobreponha à sua humanidade. O Logan dos cinemas me aborreceu a princípio, muito alto, o que descaracteriza o personagem, o herói das HQs é baixinho, bem musculoso e peludo, que ouve e sente aromas como o animal que lhe empresta a alcunha. O das telas tem seu um metro e noventa e é bem mais contido. Mas com o tempo a simpatia e esforço do Hugh Jackman me fizeram aceitá-lo, afinal a gente tem que pensar que  personagens transpostos para uma outra mídia é apenas uma versão diversa. O problema é quando não conseguem manter o mesmo espírito e isto não aconteceu de todo com o Wolverine, na minha opinião.

O primeiro filme dos X-Men é bem razoável, o segundo já melhora bastante, o terceiro deixa a peteca cair. "Primeira Classe" é muito legal (embora o carcaju só apareça numa rápida cena), "Dias De Um Futuro Esquecido" se  esforça e quase chega lá e "X-Men Apocalipse" é uma bosta. Dos filmes solo do Wolverine é melhor nem mencionar o Origens, o Wolverine Imortal (de onde tiraram que ele é imortal? Ele apenas envelhece mais devagar) eu gosto da primeira metade do filme.

Logan, filme que marca a despedida do Jackman do personagem é bem legal, tem suas falhas (e como tem!) mas penso que os acertos pesaram positivamente na balança. Um filme violento, com sangue e mutilações (filme do Wolverine em que ele não decepa membros? Tá de brincadeira!) Esse até pesa nas tintas, mas o mérito dele não está nisto. É um filme triste, que fala sobre velhice e decadência e empurra o dedo na ferida. Charles Xavier sofrendo de doença degenerativa do cérebro, Wolverine perdendo o fator de cura e tomando ibuprofeno. Mistura de faroeste, road movie com super-herói. A mistura me agradou. Deixa um gosto amargo na boca.

                                                           LONGA PAUSA....

A queda na internet não permitiu concluir a postagem ontem (domingo a noite), termino agora.

Tenho vivido dias tormentosos e vou envelhecendo sem a certeza de que o bonde que perdi um dia vai passar de novo (acho que se passar que vai estar lotado). Um filme como Logan cai como uma luva para mim. É como quando você está mal do fígado e toma um chá de boldo para ajudar a vomitar. É desagradável mas alivia um bocado.

O rabisco de hoje faz parte do que eu costumo chamar de Meu Crazy Sketchbook.


domingo, 26 de março de 2017

O TEMPO EM QUE VIVI TEMENDO QUE O CÉU DESABASSE SOBRE MINHA CABEÇA.




Amadas e amados do meu coração, boa noite.

O título da postagem de hoje não quer dizer que eu me sinta um gaulês (entendedores entenderão), mas faço uma recordação de certo tempo em Brasília. Eu já não suportava mais viver em São Paulo, aquilo estava me enlouquecendo. Era o ano de 1998, e um um amigo, recém conhecido, fez a sugestão de eu voltar a Brasília, não importava que eu não tivesse suporte, ele me ajudaria, como pudesse, a arrumar um emprego. Em tempos anteriores em que voltei para visitar meu irmão (que ainda residia lá) eu tinha recebido vários convites de velhos amigos para me hospedar na casa deles. Liguei para um em particular, por quem nutria grande afeição, falei do meu intento e ele disse: "venha, aqui você tem um lugar." E acrescentou: "você vai me decepcionar muito se voltar atrás!" Munido de certa coragem eu decidir arriscar tudo mais uma vez. Conversei com minha mãe e filha (nesta época ela era uma adolescente e morava comigo). Apoiado por elas e meus dois outros irmãos eu fiz as malas levando algumas roupas, uns livros e material de desenho e pintura. Não disse nada ao meu pai, eu queria evitar um possível conflito.

A Verônica tinha voltado para Pernambuco em 1997, nossa relação se deu à distância, sempre usando telefones públicos e fichas em todo este tempo.

Cheguei na Capital Federal otimista e com apenas uns 30 reais no bolso.

Devo sublinhar aqui que meu irmão que morava em Brasília vivia um momento delicadíssimo em sua vida e eu não iria ser um peso extra em sua amarga existência. Por isto não fiquei na casa dele. Fui até o amigo que jurou abrigo ao telefone. É nestas horas que a gente vê como é duro viver de caridade. A princípio, tudo correu bem, mas foi só nos primeiros dias. Eu tinha como meta ser o menos pesado possível, por isto só chegava na casa dele na hora de dormir. Ele morava com uma magricela e brigava com a moça o tempo todo, até batia nos cachorros dele. Sou meio debiloide e a ficha comigo demora a cair, mas notei que toda aquela agressividade foi porque havia um intruso ali - EU - e ele fez tudo o que pode para me expulsar sem usar as palavras. Entrar em detalhes demoraria e eu iria parecer exagerado, além de reviver humilhações que me doem lembrar.

Durante o dia eu saía a procura de emprego, as vezes sozinho, a pé ou de ônibus, as vezes de carro com o conhecido que me prometeu auxílio nesta empreitada. Meu irmão me dava dinheiro para eu comer. Fui em muitos lugares, agências de emprego, agências de publicidade e até em supermercados para ver se trabalhava como cartazista. Nada!

Meu irmão me chamou várias vezes para eu ir para a casa dele, mas eu queria evitar a todo custo sua mulher, que na época, me detestava. Como disse, ele não vivia bem e minha presença só faria abrir ainda mais uma ferida já gangrenando.

O tal "amigo" por fim conseguiu me por pra fora da casa dele certa noite e eu só não dormi na rua porque o Ricardo Bermudez, um brother que era músico, me acolheu na ocasião. Foi aí que um antigo colega do SENAC me convidou a ficar com ele até que eu conseguisse algo. Aceitei. Ele morava na Ceilândia, uma das cidades satélites de Brasília, um lugar muito longe que dificultava ainda mais a procura por trabalho.
Ali fiquei bem, apesar daquela eterna sensação de ser pesado, de estar invadindo espaço alheio. Ele chegava muito tarde do trabalho e era gentil em trazer pizza, lanches do Mac e essas coisas para mim de vez em quando. Uma grande alma. Não cito o nome dele aqui pois acho que ele não iria gostar.


Nesta época eu só tinha o primeiro  álbum do Zé Gatão e parte do material que comporia o segundo. A história "NADA PESSOAL" eu criei ali, na Ceilândia.
Teve episódios tragicômicos em meus trajetos entre o Plano Piloto a aquela periferia, mas não estou com paciência para os detalhes.

Continuava usando os orelhões e cartas para me comunicar com a Vera.

O trem não andava. Nada de emprego. Eu já estava desistindo, devia mesmo voltar à São Paulo, ao caos cotidiano, aos fantasmas opressores do lugar, até que uma luz no fim do túnel surgiu. Um cara de uma comic store tinha falado de um workshop na UNB para recrutar artistas de quadrinhos para trabalhar numa empresa que estava se formando. "Me diga, por favor, como faço para entrar em contato com os responsáveis." pedi ao cara. "não vai adiantar, isto foi na semana passada, o quadro já está completo", me respondeu ele. "Vou tentar mesmo assim!" "Fale com o Lima." O Lima era um desenhista que trabalhava com ele e tinha passado pelo crivo dos caras da tal empresa. Perguntei a ele e consegui um telefone. Falei com uma moça apática, ela me deu um endereço que ficava no setor hoteleiro norte.

No lugar, de posse do meu portfólio, fiquei esperando para falar com o big boss. A moça apática era a secretária e já havia me advertido que o quadro de desenhistas estava completo. "Falo com ele mesmo assim, se não for hoje, volto amanhã ou depois de amanha e ainda depois, se preciso for," afirmei.  
Fui atendido primeiro pelo gerente de produção, um negro arrogante que mais tarde eu descobriria que não passava de um bosta. Ele não ligou para as imagens do meu portfólio mas se impressionou com álbum branco do Zé Gatão. Pegou o livro e pediu para eu esperar um instante e entrou numa sala. Voltou uns minutos depois e pediu para eu entrar. Me deparei com um cara de meia idade, grisalho, baixinho de olhos verdes, bem apessoado, muito eloquente e disse que nem precisava analisar minha arte, bastava ele por a vista em mim para saber que eu tinha talento e caráter (tá! pensei ironicamente). Ele estava dando início ali a uma empresa que rivalizaria com a do Maurício de Souza Produções. Ok, disse a mim mesmo, isto é muito interessante, mas e a porra do emprego?
Como se lesse minha mente ele falou que me queria no setor de quadrinhos instrucionais. Contudo, eu só começaria em abril, quando seria inaugurada a nova sede da empresa. Nós estávamos, se não me falha a memória, no fim de fevereiro.

A secretária apática me deu endereço e telefone do novo lugar e era para eu estar em abril, sem falta, lá.

Ainda tive um mês para amargar, sem eira nem beira, pelo Planalto Central.

A minha estada na casa do amigo do SENAC acabou logo, a mãe dele vinha visitá-lo e ficaria lá por longo tempo.
Saí de lá e fui incomodar meu amigo Luca e sua esposa Lurdes. Depois fiquei na casa do Ariel, um conhecido de infância, cuja mulher, que antes era toda sorrisos comigo e muito simpática quando me via, passou a me olhar como se eu fosse um cagalhão fresco caído no tapete da sua sala. Tudo aquilo foi demais para mim, engoli a seco o meu orgulho e fui ao meu irmão. Fiquei na casa dele, e foi o melhor período. Eu devia ter ficado lá desde o princípio.

Como eu comecei na Mix Comunicação é uma narrativa que ficará para uma futura postagem. Por hoje chega de reminiscências.

Só encerro dizendo que hoje, com tudo o que tem acontecido, parece que o céu ameaça desabar sobre a minha cabeça de novo. É uma sensação estranha, mas eu sei que a solução virá. Deus é Deus e Ele tem o tempo certo para tudo.

Os rabiscos de hoje, claro, são aqueles feitos para os fãs do Zé Gatão.

Até a próxima e fiquem bem.












domingo, 19 de março de 2017

MAIS UMA BELA HOMENAGEM.


Meu barco continua no meio do oceano. As velas não se agitam, não há vento que me leve a um porto seguro, a nau continua parada, balançando ao sabor das águas. Menos mal, pelo menos não há tempestades e ventos furiosos.

Esta semana tive a grata satisfação de receber a homenagem de um artista muito talentoso, o cartunista Evandro Luiz. É sempre muito bom saber que outros feras do traço admiram meu trabalho.
Ele criou esta divertida charge.


Valeu mesmo, Evandro! Fiquei feliz!

Para conhecer mais um pouco sobre ele é só acessar a página dele no Facebook:
https://www.facebook.com/Evandro-Luiz-Cartunista-318069661929570/?pnref=story

Eu continuo batalhando em cima da HQ "O Bicho Que Chegou À Feira". Mais um pouco e eu termino o capítulo quatro.
Aqui tem uma mostra de como ela está ficando.


Abraços e beijos para vocês e se tudo der certo nos falamos de novo na próxima semana.
Até lá!

domingo, 12 de março de 2017

A ESCRAVA ISAURA (CENA 5).

Fazia tempo que a gripe não me pegava. Ontem (sábado) foi um dia daqueles. Acordar muito cedo, retirar o parco dinheiro de um trabalho muito custoso, fazer compras do mês, encarar filas, calor e sol brutal. Chegando em casa suando em bicas ligo o ventilador para sentir a refrescância (isto pode ser fatal). Penso que a perpétua pressão que sofro tem baixado as minhas defesas. Falam que gripe é doença de pobre. Logo meu corpo se recupera, eu vou tentar colaborar com ele tomando bastante água e me alimentando bem (nada posso garantir quanto ao repouso, se eu paro um dia, a roda deixa de girar).

Um breve comentário aqui sobre a produção de quadrinhos (again). Eu costumo dizer que criar HQs é tarefa de um masoquista incurável. Sempre falei por mim, mas tive a certeza que acontece com todos lendo o livro "Marvel Comics - A História Secreta". É uma tarefa inglória principalmente em países onde não existe mercado, inexiste público consumidor do seu produto, não há investimento nem divulgação, tampouco editoras que se arrisquem em obras que não tenham pedigree. Porque fazer quadrinhos que quase ninguém lê, nem dá a mínima? Só pode ser por muito amor à coisa, e aí me vem uma metáfora: o cara que investe em narrativas gráficas no Brasil é como aquele sujeito que ama uma mulher que o despreza. Ela diz ao infeliz que não o ama, desfila na frente dele com outros, mas ele continua mandando flores e presentes na esperança de que um dia ela reconheça que ele é o homem de sua vida, mesmo sabendo lá no fundo que tal não acontecerá.

Reflito muito sobre isto. Porque faço o que faço a essa altura da vida? Já publiquei os álbuns que queria, mesmo que não tenham tido sucesso. Porque continuo? Para deixar algumas obras póstumas? Seria uma reposta, mas não faz sentido. A razão eu já esmiucei aqui - HQ é minha única forma que tenho de desabafar devidamente, mas só seria viável se publicada, fazer para deixar guardado é como conversar com um poste.

O que me levou a falar sobre isto mais uma vez foram duas postagens feitas por uns amigos do Facebook que vi por acaso. Na primeira, o colega perguntava: "Você compraria produtos licenciados de personagens dos quadrinhos brasileiros?" O que me chamou a atenção foram as respostas (teve muitas!). Ninguém dá a menor bola para o que é produzido aqui, as HQs tupiniquins são tratadas com desprezo e escárnio. Claro, exceções feitas sempre aos mesmos, os tais medalhões que brilham de longa data.

É chato falar, mas o principal responsável pelo insucesso das obras nacionais na minha opinião é o público que sempre se mostra viciado no que vem de fora e é preconceituoso em relação ao que se faz em sua terra. O cara não leu e não gostou. "É quadrinho feito por brasileiro? Não quero nem saber!" É lógico que tem muita porcaria sendo lançada com acabamento de luxo por editora de renome, gibis superestimados de carinhas que acham que inventaram a roda e não entendem nada de narrativa gráfica, anatomia, perspectiva e etc, mas envernizam seus projetos com a desculpa que o traço é expressionista. Mas em contrapartida temos autores e obras que são sensacionais, mas ainda permanecem como pérolas jogadas no meio do cascalho.

Na segunda postagem o feicibuquiano perguntava na seca: qual o seu desenhista brasileiro de HQs preferido? Eu já sabia o que diriam as inúmeras respostas: artista fodões que trabalham para a Marvel e DC.

É isso, pura e simples, quadrinho nacional nunca vai dar aquele passo além.

Ok, senhor Eduardo Schloesser, o senhor tá com dor de cotovelo por que seu nome nunca é citado como um dos fodas do meio, tampouco suas obras são comentadas e quando são, pelos ditos entendedores do assunto, é sempre de forma dúbia. Eu digo que não é isso. Eu tenho o meu público, que de tão pequeno, não me permite viver disso, mas que de tão especial, faz toda a diferença no meu ego.
O que eu lamento é que personagens legais como a Mirza, Velta, O Judoka, o Raio Negro, O Morto do Pântano, O Garra Cinzenta, sejam tão pouco conhecidos, e obras como Zoo, Zona Zen, O Cabeleira, FDP, Wander, Herói Por Que Sim, O Hotel do Terror, A Revolta Da Chibata, Fantasmagoriana e muitas outras, hoje ainda, sejam totalmente desconhecidas da maioria dos leitores brasileiros de gibis.

Fecho com mais uma imagem de A Escrava Isaura.